Saudade: Apego ou Desapego?

O que é a tal saudade? O que torna essa palavrinha tão especial, além do fato, do qual temos tanto orgulho, de só existir na nossa língua e em nenhuma outra?

Já disseram que “saudade é tudo o que fica daquilo que não fica”. Gosto dessa definição. Saudade é relembrar o que se viveu, é experimentar novamente a sensação daqueles segundos, horas e até anos que não voltam mais. É perceber que a vida caminhou, que alguma coisa (ou tudo) mudou, que seguir adiante é preciso, mesmo que se olhe pra trás de tempos em tempos.

Penso que só se tem saudade de algo que não se repetirá. Mesmo que você consiga recuperar aquele amor perdido. Mesmo que retorne à cidadezinha onde cresceu. Mesmo que reencontre aquele amigo que não via há 10 anos. A sua relação com o seu amor não será mais a mesma. A sua percepção da cidade natal já não é aquela de quando você era criança. A amizade retomada terá outros significados: o compartilhamento entre dois amigos muda de forma com o passar do tempo, mais ainda quando existe a distância física.

Saudade é apego. Você não consegue deixar de desejar que aquele momento retorne. Não consegue se convencer de que aquela situação já é passado. Você se agarra àquele fiozinho de esperança que lhe diz que as coisas podem voltar a ser como eram antes.
Porém, no fundo, lá no fundinho, você sabe que não podem.

Saudade é desapego. É saber que muita coisa mudou, que não somos mais os mesmos e que a relação agora é outra. É não correr atrás do que já foi. Heráclito já dizia, com propriedade e razão: “Não se banha duas vezes no mesmo rio”.

Particularmente, prefiro curtir minha saudade, reviver em pensamento as lembranças, mas não tento retomar algo que acabou. Procurar o objeto da minha saudade pra tentar resgatar aquilo que já não existe mais é, pra mim, contraditório. Se você volta a morar na casa em que nasceu, volta mais alto, mais esperto, menos agitado.  Volta hoje com filhos e marido, com emprego e contas a pagar. É tudo diferente.

Não digo que não acredito em reconciliações, retratações, revisitações. Digo apenas que esse novo contato, caso ocorra, dará início a um novo tempo. Um novo ciclo. Jamais substituirá o que guardamos na memória ou no coração. E você, como lida com a saudade?

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