Fechando Ciclos

Um gestaltista diria que o organismo se repete na busca de completar o que está inacabado ou interrompido. Astrólogos aconselham a “abandonar o velho para se abrir ao novo”. Estudiosos do feng shui defendem a renovação: eliminar objetos antigos faria circular a energia e traria prosperidade. Psicanalistas ressaltam a importância de se viver o luto. Para eles, precisamos – de fato – entrar em contato com aquele fim para, a partir daí, elaborá-lo e superá-lo. Antropólogos não se cansam de mostrar que ritos de passagem auxiliam, e muito, os processos de transição.

Não importa a teoria – certamente há muitas. O fato é que nós precisamos  de início, meio e fim bem delineados. Precisamos associar a mudança a uma data específica, a uma situação pontual, a um evento. Ansiamos pela verbalização, pela formalização. As festas de aniversário são um bom exemplo. Dependemos de provas claras, concretas e universais dos acontecimentos para acreditarmos neles… Temos dificuldade em aceitar uma morte não comprovada, uma nota não lançada, um rompimento mal resolvido.

Talvez isso explique mães inconformadas a respeito da morte de seus filhos sumidos há anos, se seus corpos ainda não tiverem sido encontrados. Para elas, ainda há esperança. Enterrar sua cria ajuda a seguir em frente, por mais dolorosa que a experiência possa parecer (e ser).

É comum, também, vermos aquele leve ar de insegurança nos olhos do estudante recém-graduado que ainda não tem, em mãos, seu diploma. É como se algo ainda pudesse dar errado e lhe dizer: não, ainda não foi dessa vez que você cumpriu essa etapa.

E aquele apaixonado que, enquanto não vê o seu amor passando de mãos dadas com outra pessoa, não consegue assimilar que seu relacionamento acabou? Não seria ele também uma vítima da possibilidade, ainda que remota?

Precisamos fechar os ciclos para convencermo-nos de que a realidade mudou. Só seguimos em frente,  mesmo, quando a ficha cai: A certidão de óbito. A foto de beca. O sim e o não. Sem dúvidas ou ressalvas que nos possibilitem duvidar da realidade que se apresenta. Ainda que, aos olhos alheios, ela esteja bem clara, não é?

Um comentário sobre “Fechando Ciclos

  1. Sempre que leio sobre esse assunto me vem à memória o famoso episódio da aposentadoria de Rinaldo Delamare. O super pediatra deixou o consultório na quinta-feira dizendo que retornava na sexta para o último dia de atendimento, e então… faltou. Essa história não me larga, porque também eu sofro desse mal: não sei lidar com rompimentos, despedidas, mudanças… se deixar não corto nem o cabelo.

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