Fidelidade, uma questão de escolha

Uma famosa psicanalista defende, com argumentos muito sedutores (ainda que simples e datados), que o ser humano deve abrir mão da monogamia. A cobrança de fidelidade do parceiro seria prejudicial e traria desnecessário sofrimento. Seus argumentos incluem, por exemplo, o de que nenhum animal (irracional) é monogâmico, e que ter vários parceiros concomitantemente é instintivo, natural e milenar.

Não entendo esse hábito de balizar o comportamento humano com explicações que envolvem todas as classes de seres vivos. Dizer que podemos – ou devemos – ter determinada atitude porque 350 espécies de animais o fazem não é, em minha opinião, nada razoável.
 
O homem é uma espécie singular por uma série de motivos. O grande diferencial entre nós e o resto das formas de vida é que somos dotados de linguagem. A partir dela, nós pudemos nos socializar. Quais são as implicações disso? Ser social e, conseqüentemente, viver em sociedade prevê uma série de símbolos e convenções, direitos e deveres.
 
Talvez a fidelidade seja, de fato, contra nosso instinto. Talvez tenhamos sido socialmente condicionados para agir assim. A grande questão é: Qual é o problema disso? Por que, em pleno século XXI, uma profissional ganha enorme espaço na mídia, disseminando a idéia de que devemos nos comportar como selvagens? Que resistência é essa que temos em reconhecer que somos limitados por nossas convenções? Que somos, sim, domesticados e que precisamos ser? (Uso essa palavra forte, leitor, para ter sobre você exatamente o efeito de espantá-lo. Você se arrepia por eu dizer que você é domesticado, mas você o é).
 
Nós somos domesticados para a hora de dormir e acordar, para a hora de comer, para fazer exercícios físicos, para estudar, para respeitar e amar nossos pais. Somos condicionados para dar bom dia ao porteiro do prédio e para olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. Nós dependemos de regras para viver. A rotina é uma regra. O hábito é uma regra. O que são as leis, senão mero instrumento de ordem social, ainda que muitas vezes sejam arbitrárias e controversas?
 
Sou contra essa anarquia marital que propõe a psicanalista em questão porque, em última análise, o discurso dela nos equipara a insetos. Uma mariposa não pensa, não se questiona, não tem uma profissão e não tem sentimento. E eu me recuso – veementemente – a ocupar um lugar de mariposa, quando sou dotada de um excepcional aparelho psíquico, que me permite escolher. Seguir seus instintos é, simplesmente, abrir mão do seu direito de escolher. Você joga fora a sua capacidade de tomar decisões, de pesar prós e contras e age igualzinho ao cachorro da vizinha que late sem saber exatamente por que está latindo. Animais não têm poder de escolha.
 
Você já parou para pensar no privilégio que é poder escolher o que fazer com a sua vida? Quando uma pessoa diz que é da minha natureza ser infiel e que eu devo obediência a isso, ela me resume ao meu órgão sexual. Eu escuto que estou à disposição dos meus hormônios, que não tenho discernimento. E isso não é inadmissível?

2 comentários sobre “Fidelidade, uma questão de escolha

  1. maravilhoso o texto! concordo plenamente, andei recebendo uns videos dessa psicanalista e confesso fiquei boquiaberta, mas nem preciso argumentar aqui, suas palavras já expõem meus sentimentos à altura! parabéns!

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